Quinta-Feira, 14 de Dezembro de 2017

São Petersburgo

Cardoso e Myrthes

Apesar de já termos feito muitas viagens maravilhosas, com esta agora à Rússia satisfiz um desejo antigo. Desde criança, talvez influenciada por um filme de que minha mãe gostava e ao qual assisti algumas vezes, desenvolvi uma ligação romântica com este país, tão sofrido e por tantos anos afastado de minha realidade. Cheguei a me fantasiar de princesa russa, de tocar “Olhos Negros” no piano e de sonhar fazer a longa viagem. E agora, voltando de lá, de repente me lembrei do filme, “Balalaika” e, com os recursos modernos, pude assistir a alguns trechos. Exageradamente românticos, absolutamente irreais, mas ainda assim apelativos. Deu para entender por quê, menina sonhadora, tanto me marcou.

Durante o período no qual o país esteve sob o domínio soviético, poucas pessoas conhecidas lá estiveram. Suas impressões da visita me desencorajaram: condições precárias, insegurança, vigilância, falta de apoio aos visitantes.

Após a queda do Muro de Berlim e o fim do regime soviético na Rússia em 1991, ainda foram necessários vários anos para a intensificação do turismo, possibilitando o país a bem receber os visitantes. Também eu, por ser uma viagem bastante dispendiosa e que requer uma programação mais elaborada, não me animei a empreendê-la. No entanto, de repente, várias pessoas amigas, inclusive nossa agente de turismo, para lá foram e voltaram encantadas.
Minha velha paixão foi reavivada e comecei a planejar a “nossa” viagem. Cuidadosamente...

A maneira mais simples seria ir num cruzeiro e visitar apenas São Petersburgo. Não me interessou. Fazia questão de conhecer também Moscou.
Tivemos ofertas de duas excursões, acompanhadas por profissionais especializados, com programação espetacular, mas estavam acima do nosso orçamento.
Optamos finalmente por um pacote abrangendo a reserva dos hotéis, dois city tours, visitas aos palácios e ao Hermitage em São Petersburgo e ao Kremlin em Moscou. Tudo com guia e motorista particulares. Foi perfeito!

Meus preparativos incluíram a leitura de guias de viagem e livros sobre a história da Rússia, principalmente dos czares, os quais muito me interessaram e, de certa forma, me ajudaram a entender melhor tudo o que aconteceu no país. Recebi de amigos e da nossa agente de viagem informações turísticas sobre as duas cidades. Li-as com atenção e anotei no meu caderno o que não queria deixar de ver. Também procurei estudar os compositores russos e ouvir suas composições. Passei a apreciar ainda mais a música russa. Preparada, embora um pouco apreensiva, lá fui eu, lógico acompanhada do Cardoso, meu marido. Jamais imaginou, aos 83 anos, participar desta aventura.

20/08/2011 - sábado
Saída do Brasil no vôo da Air France com destino a Paris

21/08 – domingo
Conexão em Paris para São Petersburgo

Como achei que teríamos muito pouco tempo para a conexão, meia hora, num aeroporto tão grande e movimentado como o Charles de Gaulle, decidi pedir uma cadeira de rodas. Já tinha feito isto antes em Miami e tinha sido ótimo, pois o funcionário da companhia aérea nos esperou na porta do avião e rapidamente nos levou ao salão de embarque para pegarmos o outro vôo.

Mas em Paris foi completamente diferente. A comissária nos avisou que permanecêssemos no nosso lugar até que todos os passageiros tivessem desembarcado. Veio então um funcionário com uma cadeira de rodas até o corredor. Sentei-me na cadeira, constrangida, e ele foi empurrando até a porta traseira. Cardoso seguiu atrás. Encostado na porta estava uma espécie de elevador e fui empurrada para dentro, sempre com o Cardoso atrás. Essa estrutura se deslocou pela pista, sem baixar, nós lá no alto, até o outro salão de embarque, por sinal bem distante, vagarosamente. Tão vagarosamente que comecei a ficar preocupada, mas o funcionário nos assegurou que chegaríamos a tempo para a nossa conexão.
Lá chegando, o elevador desceu, o funcionário empurrou a cadeira até a porta do outro avião e me ajudou a embarcar. Excesso de zelo! Me senti até mal...

Chegada em São Petersburgo à tarde. Fomos recebidos no aeroporto e transportados ao nosso hotel: Angleterre. Muito bem localizado, em frente a uma bela praça e a uma igreja enorme, imponente, com imensa cúpula dourada. Descansamos um pouco e saímos para dar uma volta. Queríamos ir até o rio, que sabia estar próximo, mas ficamos receosos de andar pela rua sozinhos e voltamos ao hotel. Afinal de contas já era final de tarde e a viagem tinha sido longa.

Catedral de Santo Isaac

O hotel tem o restaurante, Borsalino, como diz o nome basicamente comida italiana, e The Gallery, um recanto muito simpático. É mesmo uma galeria envidraçada, com vista para a rua, mesas enfileiradas, muito agradável. Aí se pode tomar um chá ou café, aperitivos, além de refeições ligeiras, com alguns pratos típicos. Foi onde nos instalamos e acertamos. Pedimos estrogonofe, como não podia deixar de ser no primeiro dia na Rússia. Um pouco diferente do que fazemos no Brasil: a carne é cortada em fatias finas, leva menos molho e o creme de leite vem ao lado. Achamos delicioso!

22/08 – 2ª feira
Tomamos nosso primeiro breakfast na Rússia no amplo salão do restaurante do hotel. Padrão internacional: sucos, frutas, frios, queijos, uma grande variedade de pães e folhados, geléias, café, leite e chá. Achei tudo ótimo, principalmente os pães de forma, tanto o branco como o integral. A forma é colocada numa tábua, com a faca de pão ao lado e um guardanapo para segurá-la. Muito higiênico.
Depois constatei que o pão é um dos pontos altos da culinária na Rússia, tanto pelo sabor como pela variedade. Bom pra mim, que adoro pão, mas hai que ter cuidado com o peso...

Nossa guia, Olga, nos aguardava no hall do hotel na hora acertada – 10h - e sentou conosco para dar todas as explicações relativas à nossa programação em São Petersburgo. Tivemos logo ótima impressão dela. Séria, mas delicada, falando um espanhol bem claro. Nos assegurou que podíamos interrompê-la sempre que necessário, caso não entendêssemos o que falava ou para qualquer esclarecimento.
Saindo do hotel, encontramos o carro à nossa espera e o motorista, Sergei, em pé, do lado de fora, segurando a porta. Que trato!

São Petersburgo é uma cidade que possui localização insólita. Foi fundada pelo Czar Pedro, o Grande (Pedro I), em 1703, às margens do rio Neva, sobre centenas de ilhas de todos os tamanhos, entrecortadas por canais que deságuam no Mar Báltico. Em consequência, a cidade ganhou o apelido de Veneza do Báltico. Essas ilhas são ligadas por pontes, construídas com materiais que variam entre a madeira, o aço e o ferro. Não são apenas belas obras arquitetônicas, mas também ótimos pontos de observação e excelentes locais para fotos espetaculares.

O Neva divide a cidade em duas partes. A parte sul é a que mais se assemelha a Veneza e Amsterdam e onde se encontram o famoso museu Hermitage, as principais catedrais e igrejas, praças e monumentos além da Nevsky Prospect, a rua de comércio mais importante da cidade. Quatro pontes levadiças sobre o Neva ligam as partes norte e sul da cidade. Às duas horas da manhã essas quatro pontes iluminadas se abrem ao mesmo tempo para dar passagem aos barcos grandes, oferecendo um espetáculo magnífico. No auge do verão, entre o início de maio e fins de julho, acontece em São Petersburgo um festival que tem o nome de “Noites Brancas”, pois o sol quase nunca se põe. Ao longo do Neva são realizados shows, concertos de música clássica, apresentações de balé, queima de fogos e as pessoas ficam até de madrugada para ver as pontes se abrirem. Como lá estivemos em agosto, perdemos as Noites Brancas. Mesmo assim, pensei em ficar acordada uma noite só para admirar a abertura das pontes, mas infelizmente não consegui.

City tour
Durante o city tour, sempre que nos aproximávamos de uma atração importante, Olga nos dava informações sobre o local, sobre os fatos históricos aí ocorridos e sobre os personagens a ele relacionados.

Primeira visita: Catedral de São Nicolau
Antes de entrarmos na catedral, informações sobre religião: Religião do país - ortodoxa. Depois de tantos anos em que a religião foi condenada pelo governo soviético, o atual governo está incentivando o povo a voltar à religião e freqüentar as igrejas. Em consequência, novas igrejas estão sendo construídas.
As mulheres devem cobrir a cabeça ao entrar numa igreja. Olga cobriu a cabeça com um xale e levou um para mim. Segui seu exemplo.
Nas igrejas russas não existem imagens, apenas ícones, que são pinturas nas paredes, nos altares e em relicários. De um modo geral são belíssimos e se constituíram em uma das grandes atrações da nossa viagem pela Rússia. Ficamos verdadeiramente fascinados e Cardoso não se cansou de fotografá-los.

Essa igreja tem dois pisos. A parte superior é ricamente decorada com ícones e a parte inferior é iluminada por velas. Tem, também, castiçais para os fiéis e visitantes acenderem suas velinhas. Foi o que fiz. Quando entramos, estava sendo rezada uma missa e não pudemos percorrê-la toda. Ao lado do altar, um coro entoava canções sacras, que não entendi, mas achei muito melodiosas. A música na igreja é só coral, instrumentos musicais não são usados.
Não há bancos nas igrejas russas. Os fiéis ficam em pé durante toda a cerimônia, com duração de cerca de uma hora, mas ninguém demonstra cansaço.
Estilo – um belo exemplo do Barroco russo do sec. XVIII.
Fiquei encantada com essa igreja e pensei logo em voltar para melhor apreciar o altar e os ícones.

Nota:
A Igreja Ortodoxa se considera a verdadeira igreja instituída por Jesus Cristo, e seus líderes são sucessores dos apóstolos. Em que pesem diferenças teológicas, organizativas e de espiritualidade, no todo sua doutrina é semelhante à da Igreja Católica; preserva os sete sacramentos, o respeito a ícones e o uso de vestes litúrgicas nos seus cultos (denominados de divina liturgia). Os santos também são os mesmos. Em seus ofícios, a Igreja Ortodoxa usa a língua do povo. Seus fiéis são chamados de cristãos ortodoxos.
(Igreja Ortodoxa – Wikipedia)

Palácio Yusupov - no tempo dos czares pertencia a uma família riquíssima. Foi nesse palácio que o príncipe Felix Yusupov planejou o assassinato de Rasputin, um dos personagens mais marcantes do último período da Rússia Imperial.
O Salão Mourisco, com suas fontes, arcos e mosaicos, merece uma visita.

Teatro Mariinskiy - sede do famoso balé da Ópera Kirov. Infelizmente, nessa época do ano está fechado. Já sabia de antemão que o Balé Kirov estaria de férias, mas esperava poder pelo menos visitar o teatro. Fiquei decepcionada!

Conservatório Rimsky-Korsakov
Essa Escola de Música, a mais antiga da Rússia, foi fundada em 1862 e o edifício atual projetado em 1896. Entre os músicos que aí se formaram antes da Revolução se encontram Tchaikovsky e Prokofiev. Durante o período soviético, a escola continuou a florescer e a figura musical mais importante que surgiu nessa era foi o compositor Dmitriy Shostakovich. Como me tornei fã dos compositores russos, gostei de conhecer a escola onde alguns dos mais famosos estudaram.

Praça Santo Isaac
De acordo com os guias, essa praça é muito importante, mas, pra falar a verdade, não vi nada de especial na praça em si, a não ser duas grandes estátuas: a do Cavaleiro de Bronze e a do Czar Nicolau I. A primeira é a magnífica estátua de Pedro, o Grande, seu cavalo esmagando a serpente da traição. Capta bem o espírito do imperador Pedro I, um homem intransigente e voluntarioso. No pedestal da estátua do Czar Nicolau, relevos representando episódios de seu reinado.

E quem foram os czares? Para quem não conhece a história da Rússia, os czares e, também, as czarinas, foram os governantes do país desde o sec. XVI, quando Ivan o Terrível foi o primeiro a ser chamado “Czar de Todas as Rússias”, até 1917, quando Nicolau II foi deposto pela revolução soviética e mais tarde fuzilado junto com a esposa e os quatro filhos.

O destaque dessa área é a enorme e imponente Catedral de Santo Isaac. O magnífico e imenso domo dourado dessa catedral pode ser visto de qualquer parte da cidade. A construção levou 40 anos ( de 1818 a 1858) e foram utilizados 100 kg de folhas de ouro para cobrir o domo. Ouro de tão boa qualidade que brilha até hoje. Nunca foi restaurada.
Durante a era soviética deixou de funcionar como igreja. Foi transformada em um museu de ateísmo e hoje é um museu de arte religiosa onde se encontram centenas de obras de arte do sec. XIX.

Finalmente, satisfiz meu desejo de ver o Neva. Atravessamos a Ponte da Anunciação e paramos para tirar fotos na frente de duas esfinges do sec. XIV A.C., um presente do Egito. Achei inusitado, mas as esfinges são imponentes e atraem a atenção dos turistas, como eu.

Academia de Artes
O prédio é um belo exemplo do Neo Classicismo Russo e as galerias adjacentes, que tem o nome de Rafael e Ticiano, são decoradas com cópias de afrescos do Vaticano.

Tão inusitadas quanto as esfinges são as duas colunas que se erguem na entrada da Ilha Vasilievski, originalmente faróis. Chamam a atenção não só pela cor, castanho avermelhado, como pela decoração: proas de navios que se projetam, celebrando vitórias navais. Na base, quatro figuras monumentais representam quatro rios importantes da Rússia: o Neva, o Volga, o Dnieper e o Volkhov. Na frente das colunas um gramado, onde as noivas gostam de tirar fotografia. Me impressionaram e tiramos fotos também.

Entrada da Ilha Vasilievski

Fortaleza e Catedral de São Pedro e São Paulo

Na Fortaleza de São Pedro e São Paulo se encontra a catedral do mesmo nome, a mais antiga da cidade. Suas majestosas colunas em mármore, os imensos lustres de cristal e a decoração pintada em combinação com os ícones dourados criam um cenário magnífico, que acolhe as tumbas dos monarcas da dinastia dos Romanov.
Foi construída por Pedro, o Grande, em estilo Barroco, para fugir à arquitetura tradicional das igrejas russas. A espiral dourada, com um cata-vento em forma de anjo no topo, é o ponto mais alto da cidade. Ficou pronta antes da igreja e servia como um mirante de onde Pedro acompanhava a construção de sua cidade.

Em 1998, os restos mortais de Nicolau II e sua família foram trazidos para uma capela na entrada da catedral. À esquerda, um grande sarcófago onde estão os restos mortais do Czar e na parede, ao fundo e à direita, os restos mortais de Alexandra, sua esposa, dos 5 filhos e dos empregados que acompanharam a família no exílio na Sibéria.
Fiquei realmente sensibilizada ao contemplar essa capela pois tinha lido um livro sobre Nicolau e seu triste destino.

Nicolau II foi o último czar da dinastia dos Romanov, que reinou de 1894 a 1917 na Rússia.

Aliás, se você pretende visitar a Rússia, não deixe de ler alguma coisa sobre seu passado. É uma história rica, de homens poderosos e mulheres voluntariosas, traições e assassinatos. Monumentos, igrejas, catedrais, museus e palácios a ela estão relacionados.

Cabana de Pedro I – Nessa cabana tosca, feita com troncos de madeira, Pedro I morou com sua esposa, que era uma camponesa, durante seis anos, enquanto supervisionava a construção de sua nova cidade.

Cruzador Aurora – Esse navio de guerra integrou a frota czarista russa no Pacífico. Foi utilizado na guerra russo-japonesa em 1905. Em 1906 retornou ao Mar Báltico, onde passou a ser utilizado como navio de treinamento.
Voltou a operar em 1915, na I Guerra Mundial, desta vez armado com 14 canhões. Em 1916 retornou a São Petersburgo para fazer reparos, mas encontrou a cidade plena do fermento revolucionário. Parte de sua tripulação participou da Revolução de Fevereiro de 1917, que derrubou o czar. Teve também papel importante na 2ª Guerra Mundial.
Hoje, restaurado e ancorado no Rio Neva, funciona como museu.

Igreja da Ressurreição de Cristo, mais conhecida como Catedral de Nosso Salvador do Sangue Derramado. Foi construída às margens de um dos braços do Rio Neva, no local onde em março de 1881 o czar Alexandre II foi assassinado.
Sua arquitetura em estilo russo medieval clássico, com torres coloridas decoradas com ouro, pedras preciosas e cruzes resplandecentes, é de tirar o fôlego e, com toda razão, transformou-se no endereço mais fotografado da cidade.

Catedral do Sangue Derramado

Belíssima a arquitetura das catedrais russas! Algumas parecem criações de contos de fadas!!!

Nossa guia nos aconselhou a voltar numa outra ocasião para visitar o interior, pois ainda tínhamos muito que ver na programação do city tour.

Edifício Singer – Foi construído para sediar a Empresa Singer, das outrora famosas máquinas de costura. É um belo edifício em estilo Art Nouveau, e chama a atenção por ter um globo no alto de uma torre cônica de vidro. Gostei muito dessa construção, mais ainda porque hoje aí funciona uma livraria e um salão de chá, onde logo voltamos.

Catedral de Nossa Senhora de Kazan – Tanto a planta quanto a fachada são semelhantes à Catedral de São Pedro em Roma. É sem dúvida muito imponente, porém a do Sangue Derramado me deixou muito mais impressionada por ter um estilo tipicamente russo.

Voltamos ao hotel pela Nevsky Prospect, a principal via da cidade. Esta avenida concentra alguns dos melhores hotéis, centros comerciais, restaurantes, teatros, cinemas e estabelecimentos diversos, inclusive lojas de grifes internacionais famosas, ao longo de seus 4,5 km. Trânsito intenso e calçadas sempre movimentadas. Pode-se dizer que esta é a própria passarela de São Petersburgo.
Olga nos explicou que as butiques e lojas de luxo não são freqüentadas pelo povo, que não tem poder financeiro para nelas fazer compras.

Terminado o city tour, Olga nos deixou no hotel com um bom mapa da cidade e explicações detalhadas de como chegar aos restaurantes por ela recomendados e às principais atrações, caso quiséssemos voltar para ver com mais calma.

Tentativa frustrada!!!
Após o almoço, num dos restaurantes indicados, resolvemos voltar à Catedral do Sangue Derramado pra ver seu interior.
Mapa na mão, saímos do hotel confiantes, seguindo as indicações da Olga. Chegamos a um canal e pensamos: “Estamos perto.” Tínhamos visto água ao lado da igreja.
Viramos à esquerda, conforme mostrava o mapa, e fomos seguindo o canal. Andamos, andamos, e nada de chegar. Começamos a desconfiar... Vimos algumas senhoras e paramos para pedir ajuda. Foram muito prestativas, mas não falavam inglês. Mostramos o mapa e elas apontaram para a placa com o nome da rua. De nada adiantou. Na placa o nome estava escrito no alfabeto cirílico, o alfabeto russo, e no mapa, em inglês, no nosso.
Ficaram decepcionadas por não poder ajudar. Passou um rapaz, com bom aspecto, e elas o chamaram. Explicaram o que estava acontecendo. Ele arranhava o inglês e conseguiu entender o que queríamos. Mas era tarde pois, conforme nos explicou, não seria possível chegarmos ao nosso destino a tempo. Estava quase na hora da igreja fechar. Mas nos explicou como voltar ao hotel.
No caminho vimos muitas coisas interessantes, belos prédios, uma bela praça, mas ficou a frustração...

23/08 – 3ª feira

Visita ao Hermitage

Durante quatro horas, Olga nos conduziu por todos os quatro edifícios do museu nos mostrando as obras principais e dando explicações interessantes e muito úteis.

Iniciamos a visita pelo Palácio de Inverno, que era a residência oficial da Família Imperial e é atualmente o coração do museu. Construído para a Czarina Isabel entre 1754 e 1762, é um exemplo admirável do Barroco Russo. No entanto, após o assassinato do Czar Alexandre II em 1881, a Família Imperial raramente permanecia nesse palácio. Passavam mais tempo num dos palácios imperiais fora do centro de São Petersburgo e Nicolau II, o último czar, vivia com sua mulher e filhos num palácio em Tsarskoe Selo, menor e mais aconchegante.

Após a Revolução Comunista de 1917 e a queda da Família Imperial, o Palácio de Inverno foi aos poucos sendo incorporado aos dois edifícios já existentes do Museu Hermitage, inaugurado pelo Czar Nicolau I em 1852 como um museu público. Durante os anos 1990, o majestoso prédio do Estado Maior do Exército, em estilo Neo-Clássico, foi acrescentado ao museu. Além dos quatro prédios, o Hermitage possui também um teatro.

O fabuloso acervo do Hermitage compreende coleções de arte da Europa Ocidental, seções de arte pré-histórica, egípcia, russa e oriental, além de excelentes exibições temporárias.
Não há dúvida de que seria impossível visitar todo o Hermitage num dia, como constava de nosso programa. Nem mesmo em um mês, pois só o Palácio de Inverno possui 1057 quartos e 117 escadas. Nossa guia nos conduziu pelos cômodos mais ricos e atraentes, chamando a atenção para as peças mais importantes e para certos detalhes. Depois nos levou para ver as coleções de arte da Europa Ocidental, nossa prioridade, em grande parte adquirida pela Czarina Catarina, a Grande.

Após a revolução, a nacionalização das propriedades reais e privadas trouxe mais pinturas e obras de arte para o museu, tornando o Hermitage um dos museus mais ricos do mundo. Ficamos deslumbrados com a seleção de quadros, de extremo bom gosto, dos maiores artistas desde o Gótico até a Arte Moderna, e conseguimos fotografar alguns, como “Um Jovem Tocando Alaúde” de Caravaggio pelo qual Cardoso se encantou. “A Dança” de Matisse, que tínhamos admirado no MoMA em Nova York, em sua versão para a Rússia tem cores diferentes, com predominância do vermelho.

Outro deslumbramento: o Pavilhão do Pequeno Hermitage, cujo piso é adornado com mosaicos formando belíssimo desenho, uma cópia do sec. XIX de mosaicos da Roma Antiga. Também abriga outra preciosidade – o Relógio do Pavão, encomendado para Catarina pelo Príncipe Grigory Potemkin.

No Grande Hermitage percorremos as Loggias de Rafael. A história das “Loggias” de Rafael é curiosa. No final dos anos 1770, voltando de uma viagem à Roma, Catarina II ordenou a cópia dos célebres afrescos do Vaticano executados por Rafael e seus alunos entre 1516 e 1518. As cópias foram executadas sobre telas, transportadas para São Petersburgo e dispostas numa galeria. O Museu contém a única reprodução no mundo em tamanho original das celebradas “Loggias”.

Hermitage - Galeria de Rafael

Achamos que nossa guia planejou muito bem essa visita ao Hermitage, pois em pouco mais de quatro horas percorremos os quatro edifícios, conhecemos os corredores e os salões principais, subimos e descemos as majestosas escadas e nos detivemos para apreciar nossas prioridades. Ainda, à medida que ela apontava as principais obras de arte, nos contava um pouco da história a elas relacionada e dos homens e mulheres que as adquiriram. Não há dúvida de que gostaria muito de passar mais dias em São Petersburgo e, nesse caso, fazer mais visitas a esse deslumbrante museu, mas posso dizer que conheço o famoso Hermitage. Na saída, quando descíamos as escadas, vimos lá em baixo, uma fila enorme de turistas esperando para entrar. Chovia e todos portavam guarda-chuvas. Coloridos! Valeu um foto bastante original.

almoço tardio – no The Idiot Cafe – Situado no subsolo de uma casa no canal, os quatro salões são decorados com mobília de época, quadros a óleo e objetos que remetem à época de Dostoievski, autor do romance. Tinha nos sido bastante recomendado.
Comi tagliatele Alfredo, com “escallopi” e camarão. Estava perfeito. Cardoso também comeu camarão e se deliciou.

Ficamos tão cansados com a visita ao Hermitage que dormimos à tarde.

Noite – Balé – O Quebra-Nozes de Tchaikovski, uma apresentação da Companhia de Balé Leonid Jacobson.

Ida ao Balé

Infelizmente o Ballet Kirov, por ser verão, estava em viagem e o Teatro Mariinski fechado.

Leonid Jacobson foi um grande coreógrafo e ficamos muito satisfeitos com a performance dessa companhia. Achamos o teatro, embora pequeno, bonito e confortável. Decoração tipicamente russa.
O Quebra-Nozes, com música de Tchaikovsky, tem a tradição e o encanto de um belo conto de Natal. É um balé alegre e bastante movimentado.

Foi uma noite tipicamente russa, que muito nos agradou.

24/08 – 4ª feira Visita ao Palácio de Catarina Grande, em Tsarskoye Selo.

Tsarskoye Selo (em russo ??´????? ????´; "vila do tsar") é uma vila localizada 26 quilometros ao sul da cidade de São Petersburgo. Recebeu o nome de Pushkin durante a época soviética. Dentre os numerosos palácios Imperiais e da nobreza existentes na vila merecem destaque o Palácio de Alexandre e o Palácio de Catarina.

O primeiro palácio que se ergueu nesse local foi construído em 1710 por Pedro I, o czar que fundou São Petersburgo, para sua segunda esposa, Catarina, que era uma camponesa, uma mulher modesta. Tinha 16 cômodos e para ela era suficiente.
Entre 1745 e 1755 esse palácio foi muito ampliado, reconstruído para sua filha Isabel. Os trabalhos ficaram a cargo de Rastrelli, o arquiteto preferido de Isabel, que era filho de italianos. O estilo escolhido foi o Barroco. Isabel nomeou-o Palácio de Catarina, em homenagem a sua mãe, Catarina I.

Isabel era uma mulher muito vaidosa, tinha quinze mil vestidos e cinco mil sapatos. Precisava de muito espaço. O palácio tinha 325 metros de comprimento distribuídos em duas alas.

Mais tarde, Catarina II ocupou o trono da Rússia. Ela era alemã e casou-se com Pedro III, filho de Isabel. Tramou o assassinato do marido para ocupar o trono.

Novamente, o palácio foi reformado, pois ela gostava do estilo Clássico. A reforma foi feita, dessa vez, por seu arquiteto preferido, Charles Cameron, da Escócia. De modo que, alguns cômodos são em estilo Barroco, outros Neo-Clássico. Gostei mais dos em estilo Neo-Clássico, são mais delicados. O mais belo de todos é o Salão Âmbar, um presente de Frederico Guilherme, da Prússia, para Pedro, o Grande.

Materiais preciosos usados no palácio: madeiras nobres, mármore, folhas de ouro, azulejos holandeses (Delft), cristais, porcelanas alemães (Meiss). Uma riqueza!

Jardins franceses na frente do palácio e bosques em volta.

Nota: Durante a 2ª Guerra Mundial, os alemães ocuparam esse castelo. Quando os governantes russos sentiram que isso ia acontecer deram ordem de preservar tudo que fosse possível. Louças, tapetes, telas, tecidos nobres, móveis menores, cristais, porcelanas foram encaixotados e enviados para a Sibéria. Foram, também, tiradas fotos dos ambientes.

O palácio foi bastante danificado. Logo após o final da guerra, a restauração foi iniciada e quase tudo ficou como era antes.

Achei extraordinário esse processo de preservação e restauração. Nossa guia, Olga, dá esse crédito aos socialistas que, de acordo com ela, sempre se preocuparam em preservar a história da Rússia, por isso preservaram os palácios mais importantes dos czares. No entanto, o mesmo não aconteceu em relação à religião.

A igreja do palácio é linda, no Estilo Russo, com cinco cúpulas douradas. O exterior está restaurado, mas infelizmente nada foi salvo do interior e não se sabe como era, de modo que não pode ser recuperado.

Final de tarde – chá no salão de chá do edifício Singer e visita ao interior da Catedral de Nossa Senhora de Kazan.

Passeio pela Nevsky Prospect, a avenida principal.
Volta de ônibus para o hotel.

Cardoso ficou injuriado porque achou que o motorista de taxi que nos levou até o centro cobrou um preço absurdo. Os taxis não possuem taxímetro, de modo que os motoristas cobram o que quiser dos turistas desavisados. Pediu, então, informação sobre os ônibus à gerente do salão de chá. Foi muito simples. Não tivemos nenhum problema e gostamos de ver como funciona o transporte público em São Petersburgo.

Jantar – no Gogol, restaurante próximo ao hotel, indicado por nossa guia. Um salão aconchegante, decorado como se fosse num apartamento do início do sec. XIX, época em que Gogol, o famoso escritor, viveu. Mobília típica de madeira escura contrastando com o papel de parede florido. Mesas forradas com toalhas brancas, bem postas. Garçons muito atenciosos, apesar de falarem inglês precário. No cardápio, várias opções de comida russa. Escolhemos Frango à Kiev. Estava gostoso, mas achamos a cozinha do The Idiot superior. No entanto, foi uma noite agradável, com fundo de música clássica. Vale a pena uma ida ao Gogol. E, sem dúvida, também ao The Idiot. Duas boas dicas que tivemos.

25/08 – 5ª feira

Visita a Peterhof (Palácio de Pedro I)

Pedro, o Grande, construiu sua bela cidade sobre ilhas, às margens do Rio Neva, entrecortada por canais. No entanto, ele queria uma saída para o mar Báltico e a fim de obtê-la entrou em guerra contra a Suécia. Tendo derrotado os suecos em 1709, ganhou o acesso marítimo direto aos países da Europa. Após essa vitória, decidiu construir um palácio à altura de sua posição de “Grande Monarca”. Recebeu o nome de Peterhof, que significa Corte/Jardim de Pedro.

A situação desse palácio é privilegiada, às margens do Báltico, no centro de um parque magnífico. O palácio em si é imenso e luxuoso, mas a grande atração consiste em suas fontes.

Após visitar o interior do palácio, percorremos os jardins, apreciando e fotografando as fontes, maravilhados. O conjunto mais famoso, a Grande Cascata, se estende dos terraços do palácio até o mar. É composto de 64 fontes diferentes, 37 esculturas de bronze dourado e 42 jatos de água. Espalhadas pelos jardins, muitas outras, dos mais diversos feitios. Achei super original a Cascata do Xadrez e me diverti com as Brincadeiras, que de repente esguicham água em cima dos passantes.

Peterhof - Grande Cascata

Fomos para Peterhof, que fica a 29 quilômetros de São Petersburgo, de carro e Olga planejou a nossa volta por mar. Achei ótima a idéia pois queria conhecer o Báltico. Nos explicou que Talin e Riga são duas cidades bonitas no Báltico. Já me deu vontade de visitá-las.

Enquanto esperávamos a saída do hidrofólio, comemos blinis (pequenas panquecas) numa tenda no jardim do palácio. Achei muito gostosas.

Sergei nos esperava com o carro no porto e nos levou direto a uma grande loja de suvenires para comprar as “matryoshkas” e outras lembranças.

As “matryoshkas” são as bonecas russas típicas colocadas umas dentro das outras. Olga me ajudou a escolher, pois há dos mais variados tamanhos e qualidades: das mais rústicas às pintadas à mão, com 4, 5, 6 até doze bonecas. Sou encantada com elas e acho que sozinha teria ficado horas para escolhê-las.

À tarde fizemos um lanche no The Gallery, no nosso hotel e comi um strudel delicioso. Cardoso, Club Sandwich. Bem apresentado e também saboroso.

Final de tarde – visita à Catedral de Nosso Salvador do Sangue Derramado.

Dessa vez conseguimos entrar e ficamos extasiados. Se o exterior é de tirar o fôlego, o interior não fica atrás. É de uma riqueza estonteante: muito mármore italiano, pedras preciosas, bronze e prata. Contudo, são os mosaicos que cobrem uma vasta área das paredes ( aproximadamente 7 mil metros quadrados), executados com a mais perfeita habilidade técnica e artística, que tornam a igreja um monumento de significância internacional. Me encantou o altar do lado esquerdo, cuja parte superior parecia em renda branca no formato das toucas das mulheres russas de antigamente. Será que divaguei?
Suas fachadas intricadamente decoradas e seu interior espetacular fazem com que a igreja se assemelhe a uma flor rara e exótica brotando nas terras pantanosas de São Petersburgo.

Catedral do Sangue Derramado (mosaicos no interior)

O jantar também foi no The Gallery. Acabamos fazendo a maior parte das refeições no hotel. Tudo é delicioso e muito cômodo para nós, principalmente à noite. Em telas de televisão bem colocadas, a fim de que das mesas se possa ver bem, apresentação de desfiles dos grandes costureiros, principalmente franceses. Música de fundo suave, adequada.

Enquanto tomávamos nosso aperitivo, seguido de uma refeição ligeira, nos entretíamos com os desfiles. Passatempo original, que achei muito agradável.

26/08 – sexta-feira – último dia em São Petersburgo.

Que pena! Como sempre, gostaria de ficar mais. Essa cidade me encantou, senti-me bem.

Embora rapidamente, consegui fazer uma visita à Catedral de Santo Isaac, que hoje funciona como um museu de arte religiosa.
Ao meio dia em ponto, Sergei e outra guia, Olga tinha compromisso e nos despedimos na véspera, nos pegaram no hotel para levar à estação de trem, onde embarcamos para Moscou.

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